Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Deus te enguie faraflan!

A Lala do Passiondance, desafiou-me a escrever uma das minhas memórias de infância que terminasse com uma frase engraçada. Acho que era mais ou menos assim o desafio... Se não for, desculpa Lalinha, mas o que conta é a intenção... E como tal aqui vai:

Antes de começar a escrever este post, numa pequena pesquisa que fiz pelos blogs dos demais "desafiados", vi que a maior parte tinha escrito sobre os seus avós. Eu, infelizmente, não tenho recordações dos meus avós! Tanto o meu avô paterno como o materno, faleceram antes de eu nascer. Quanto às minhas avós, materna e paterna, faleceram as duas quando eu tinha 3 anos. Do pouco tempo que convivi com elas, derivada à pouca idade que tinha, não trago igualmente recordações. 

No entanto, porém, eu tive uma avó adoptiva, e é sobre ela que vou falar hoje. A Avó Maria!

A Avó Maria era a avó de uma vizinha que tive durante quase toda minha infância. Uma grande amiga que até hoje conservo. Hoje em dia somos, para além de quase irmãs, também comadres! E foi com o consentimento dela, que quando eramos crianças, eu adoptei, a sua Avó Maria.

A Avó Maria, era uma mulher admirável! Fisicamente era o protótipo da avó que todos sonhamos ter. Vestida de escuro derivada à viuvez, tinha cabelos brancos, usava uns óculos redondos com aros de metal, tinha uns olhos miudinhos muito atentos, e um sorriso lindo que nos dava tranquilidade e aquietava a alma. Era uma mulher perspicaz, inteligente, com ideias muito avançadas para o seu tempo. Lia muito e via muita televisão. Mantinha-se sempre informada e tinha opinião sobre tudo. Absorvia e decifrava com muita lucidez o mundo que a rodeava. Era uma artista. Como se costuma dizer "fazia o que queria com as suas mãos"! Se visse algo que lhe captasse a atenção numa revista, ou onde quer que fosse, lá ia ela apressada para a sua máquina de costura e para a caixinha mágica de alfinetes e botões, e não tardava muito saía daquelas mãos esguias e hablilidosas o que ela, só de vista, se tinha proposto fazer! Até hoje guardo com amor, algumas dessas preciosidades feitas por ela. Guardo-as tal qual como ela mas ofereceu... Ainda envoltas em nuvens de papel de seda, entretando amarelecido pelo tempo.

Mas se havia coisa em que a Avó Maria também era abil, essa coisa era a arte de contar histórias... Histórias verdadeiras, contadas na primeira pessoa. Coisas do tempo em que ela era rapariga nova! Eu vibrava com os episódios que ela tão bem relatava... A visita da Rainha Dona Amélia à Terceira, a sua irmã mais nova que tinha sido salva, como que por milagre, do surto de peste bubónica, as vindas de carroça à cidade de Angra do Heroísmo planeadas com semanas, meses, de antecedência como quem planeia hoje em dia um itenerário de férias, as desfolhadas do milho com Chamarritas cantadas e bailhadas ao som de violas da terra e à luz dos candeeiros de petróleo. Todas essas cenas eu vivi através dos olhos, e das histórias da Avó Maria!... E sinto-me afortunada, por através dela, ter podido contactar com tempos remotos, e realidades tão diversas das em que eu cresci e me criei.

No meio disto tudo, a Avó tinha, como mais um sinal da sua admirável inteligência, um apurado sentido de humor. Havia sempre um pormenor engraçado nas histórias que contava. Pormenor esse que ela na altura tinha captado, e que depois relatava, à sua peculiar maneira, fazendo a todos soltar gargalhadas.

Uma dessas historias, que até hoje está bem presente na minha mente, foi passada, contava ela, no dia em que a Ilha Terceira, foi sobrevoada pela primeira vez por um aeroplano. Dizia ela que ao som dos motores, todo o povo de cabeça levantada para os céus, saiu para a rua, e ficou atónito a observar coisa até então nunca vista!!! Entre essa multidão, encontrava-se uma vizinha dela que, digamos, se atrapalhava um bocadinho na fala... E no meio de todo aquele burburinho de exclamações provocadas pelo acontecido, ergueu-se a voz da dita, que emocionada, gritou a plenos pulmões: "DEUS TE ENGUIE, FARAFLAN!"

Sempre que contava isto, a Avó Maria ria, e fazia-nos rir, às lágrimas!!!... E se algo por acaso não lhe corria lá muito bem como ela desejava, ou não lhe interessava, ela atirava logo, com o seu jeito muito despachado um: "Deus te enguie, faraflan!"

E eu, como "boa neta" que sou, sigo as suas pisadas, e faco, como ela me ensinou, também o mesmo!! Se é coisa que não me serve, não me ponho com meias medidas: "Deus te enguie, faraflan!"

Dedicado a "minha" Avó Maria, por me ter dado a oportunidade na vida de saber o que era ter uma avó! Dedicado à minha "Compadre", por abnegadamente me ter "emprestado" a sua avó! Dedicado às duas, como testemunha que fui do imenso amor que as unia! Obrigada Avó! Obrigada "Compadre"!

Com amor da também vossa,

Jo

P.S. Agora parece que tenho de passar este desafio a outras pessoas... Hmmm... Já sei! Não vou desafiar ninguém especificamente! Em vez disso, desafio todos os leitores do Blog da Jo a deixarem uma das suas memórias de infância, por pequena que seja, em jeito de comentário.

    

Hoje sinto-me: Neta
Catálogo de vôos: , ,
Palavra de Joanina às 23:39

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17 comentários:
De Lala a 8 de Maio de 2008 às 08:53
Bom dia Jo.
História engraçada.
Ainda bem que tiveste uma avó emprestada.
Essas tem tanto ou mais valor que uma avó verdadeira, porque são avós de coração.

Bjocas amigas.

Lala
De Joanina a 8 de Maio de 2008 às 15:31
Como vês não faltei ao prometido e respondi ao teu desafio. Mais vale tarde do que nunca! Bj da Jo
De herewithme a 8 de Maio de 2008 às 11:29
ola, aceito o desafio, um dos meus proximos posts será então uma das minhas memórias de infancia...
Ainda bem que tive curiosidade de vir visitar o teu blog, está lindo...
Espero receber a tua visita brevemente no meu blog...
Bjxxx
De Joanina a 8 de Maio de 2008 às 15:34
Obrigada por teres aceite o desafio e pela tua visita. Com certeza que vou visitar o teu blog também! Volta sempre! Bj da Jo
De Girassol a 8 de Maio de 2008 às 11:57
Jo,
Como leitora assídua do teu blog, que adoro, deixo aqui a minha história de infância:
Tinha eu os meus 8 anos, recebi pelo Natal uma BARBIE, oferecida pela minha querida, linda e maravilhosa tia e madrinha Bió.
Como devem calcular eu estava nas nuvens com aquela BARBIE, hoje são banais mas há 40 anos atrás eram poucas as crianças que as tinham, voltando à história, é claro que a BARBIE andava sempre comigo não a largava um minuto.
Mas um dia o pior aconteceu, não sei por que razão deixei a BARBIE em cima de uma cadeira no quarto da minha Avó.
Quando voltei não queria acreditar no que estava a ver.
Alguém tinha aproveitado a minha ausência para me ROER os pés da minha BARBIE.
Não podem imaginar o desgosto que eu tive.... foi terrível!!!!!
Deixo no ar a pergunta.....?????
Quem me terá ROÍDO os pés da minha BARBIE ??????
Beijos da mana que te adora
P. S. Jo, espero que não tenhas ficado comigo.
De Joanina a 8 de Maio de 2008 às 15:41
Girassoooooooooooooollllll !!!!!!!!!! Fico muito contente de te ver de volta! Senti a tua falta!Quanto a historia da BARBIE hehe Quem terá feito tal coisa???!?!?! Os leitores se quiserem saber o resto da historia vao ter de aguardar para que contes, pois eu cá não sei de nada!
Bj da Jo que te adora!
P.S. Claro que não fico contigo!
De Miga Edu a 8 de Maio de 2008 às 13:19
Como não podia deixar de ser, tinha que deixar aqui um coment sobre a minha Avó Sara, que felizmente ainda é viva com 86 anos, e que entre as muitas alegrias que sempre me deu e um rol de histórias engraçadas que vivi na sua companhia, não me posso esquecer da sua ida anual ao cemitério visitar a campa do marido falecido(tinha ela 44 anos) e lhe pedir mais um ano, para se divertir na companhia da familia e amigos, pois o meu avô muito severo e conservador, não lhe permitiu muitas distrações .E depois lá iamos, avó e netos almoçar num belo restaurante à saúde do meu avô, que Deus o tenha.
Ó Eduardo, dá-me mais um ano.
De Joanina a 8 de Maio de 2008 às 15:43
Oh Miga, essa e mesmo gira!!! lol Mais uma das historias hilariantes da avo Sara!! Bj da Jo para ela e para ti também!
De Manuela a 8 de Maio de 2008 às 17:18
Deus te enguie minha amiga para teres sempre histórias assim lindas para contar :-)

Beijinhos
De Joanina a 8 de Maio de 2008 às 19:44
Thanks, amiga! Bj da Jo
De Mena a 8 de Maio de 2008 às 22:55
Olá Joanina
Escrevo para te felicitar pelos teus últimos escritos.
Adoro!
também tive uma avó! Era uma grande AVÓ!
Esteve sempre muito presente na vida dos netos e também me transmitio valores muito importantes.
Quando ela era nova servia de enfermeira a todos os que viviam perto dela. especialmente ás pessoas de idade.
Teve uma vida dura e difícil mas nunca a ouvi queixar-se de nada.
Quando ela era ainda muito nova adoeceu mas recuperou muito pois não era mulher de se entregar assim á primeira.
Mesmo velhinha e com muitas incapacidades fisicas lavava a sua casa, a sua roupa na pia, tratava de tudo.
Quem me dera ter o espírito guerreiro da minha avó!!!!
Agradeço muita vezes ter tido esta avó.
Tenho muitas saudades dela.

Beijinhos
Mena



De Joanina a 9 de Maio de 2008 às 02:38
Que historia linda a da tua avo, amiga Mena!! Eu acho que tu ate tens o espírito guerreiro dela!! Pelo que conheço de ti, tu também és uma mulher de armas. Obrigada pelos teus elogios e pelas tuas visitinhas. Bj da Jo
De Sofia Ferreira a 9 de Maio de 2008 às 13:47
Olá "Padrinha" Ou muito me engano ou este texto é dedicado à minha "avó velhinha", como diz a minha avó. Da "avó velhinha" sei pouca coisa, apenas o que a minha avó ia contando, mas sabia da sua habilidade com as mãos, ou não estivesse a casa da minha avó cheia de bonecos de pano e outras coisas feitas pela "avó velhinha". Sei também pelo que a minha mãe diz, que era uma senhora muito boa e partilhava também o gosto pelos animais... Quando chegava a minha mãe a casa com um cão abandonado e a minha avó o punha na rua, era a "avó velhinha" quem o acolhia :)
Da minha avó posso falar das histórias que me contava, que certamente ouvira da boca da sua mãe, das idas ao jardim, e a todas as festas populares que houvessem na praça velha (pra horror da minha mãe que não gostava de ir a esse "tipo de eventos"), das fantasias de carnaval que me arranjava, ora era o capuchinho vermelho, ou trajava a rigor com traje de folclore... De me obrigar a ir à missa quando o que apetecia era ficar na cama a dormir, dos chicharros fritos e os torresminhos, que ainda hoje tão bem faz para meu agrado e da sua preocupação sempre que ouve que há uma "inundação" para as bandas do "continente" e é um tal ligar a saber se a net não morreu afogada . Quero agradecer à minha avó por tudo o já mencionado, à minha mãe porque a amo e à "padrinha" por ter escrito este post e me ter permitido conhecer um pouco mais da avó Maria

Um Beijinho

Sofia

P.S.- Nem sempre comento mas to sempre atenta as novidades, é um blog que tenho muito gosto em acompanhar
De Joanina a 9 de Maio de 2008 às 16:19
Olá "Afilhado"!! Fiquei super feliz com o teu comentário!! Este texto e, de facto, dedicado a tua avo velhinha que era uma pessoa fantástica, por quem eu tinha imenso carinho e admiração! Acho lindo o que contas da tua avo e ainda me ri um bocado, pois e tal e qual como eu a conheço! A historia das inundações no continente e mesmo gira!! E então a das Barbies, e a marca registada dela! lol Um beijo grande e tudo de bom para ti, da tua "padrinho", Jo!
De Sofia Ferreira a 9 de Maio de 2008 às 13:52
Ah! Já me esquecia.. Também tenho uma história com a minha avó e Barbies .
Mas nesta história, a avó oferecia à neta as barbies mais bonitas que existiam na Base "Amaricana" e de seguida fechava-as em Armários a sete chaves para a neta não as estragar!

Hahaha

A minha avó e a mania das poupanças

Resultado, ainda hoje a minha avó guarda barbies imaculadas nas suas gavetas
De Mina Kida a 9 de Maio de 2008 às 19:33
Como é obvio não conheci os meus avós, se a minha Duanina tinha 3 anos quando faleceram as minhas avós.
Mas tenho uma história, que não é bem história mas sim uma recordação. Com as minhas "coisas mai lindas" que são tudo para mim.
Lembro-me dos nossos passeios de Domingo no carocha do pai pela estrada do mato em que eu era obrigada a ir no meio no assento de trás, porque o Girassol e a Duanina é que tinham o "posto" mais alto e ficavam com as janelas. Um belo dia num desses passeios estavamos perto do clube de glof e não sei porquê cheirou-me a amendoim, talvés fosse um desejo de criança a ver se calhava entrar no clube de golf e exclamei bem alto: "uuhmmmmm que cheirinho a amendoim", nesse momento entrava pela janela do carro, um aroma bem nosso conhecido dos cerrados e das nossas vaquinhas da ilha Terceira. Nem fazem vocês ideia o que a nossa querida Duanina se riu e fez troça de mim
Penei muito com ela, mas ela também comigo.
Uma vez até partimos um sofá à pancadaria uma na outra!
Adorei a história da Avó Maria, também me lembro dela e de me ter dado um ursinho castanho com uns pespontos vermelhos feito pelas suas mãos. Mas também me lembro bem da "Cadilhosa" a cadela branca "flapuda" que me ia às pernas para me morder
Beijinhos
Mina Kida
De Joanina a 9 de Maio de 2008 às 22:58
E verdade, minha coisa linda que também és tudo para mim!!! Os nossos passeios no carocha!! Ate me deu um "baque" no coração.
E coitadinha!! Eu ate hoje nunca tinha percebido que aquilo do cheirinho a amendoim era uma dica para ver se calhava irmos ao clube de Golf ! Tadinha ... sorry!
Mas essa ficou para a historia, e ainda agora, que eu vivo aqui em terra de farms e vaquinhas, se me da aquele cheirinho eu digo ao husband que smells like peanuts!!
Bj da Jo! Minha coisa mai' linda...

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